sábado, 3 de maio de 2008

Trapo



Dedicado à Carine

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.


Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?


Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.


Carinhos? Afetos? São memórias…
É preciso ser-se criança para os ter…
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.


Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer…
Quando foi isso? Não sei…
No azul da manhã…

O dia deu em chuvoso.

Fernando Pessoa

6 comentários:

Michel disse...

Depois de 2000 visitas, senti como se tivesse fechado um ciclo. Não estava desenhando mais... tinha parado de ler Pessoa... e precisava que alguma coisa me movimentasse para voltar a postar. Muito obrigado Carine, pelos momentos tão alegres, espero não demorar tanto pra te ver de novo.
Me desculpem pela demora! espero que gostem das novas postagens!
Abraços!!

Carine disse...

Eu é que agradeço a oportinudade maravilhosa, a recepção calorosa, o amor e carinho com que você me recebeu. Você e toda a minha família!
Não pretendo ficar mais tanto tempo longe. Me sinto lisongeada de ter te motivado a escrever, desenhar e colocar aqui todos os seus sentimentos, que tenho certeza são verdadeiros.
Ainda bem que você passou daquele menino chato (hahahaah) para esse grande homem! Obrigada!!!!!
Carine (menina do cabelo verde e bagunçado)...

sarita disse...

Estava sentindo falta,finalmente vc postou algo...menino sem tempo!Perfeito como sempre!Boas férias,espero que esteja tão boa qto as minhas.Até dia 12,eu acho.

Patrícia de Medeiros Nóbrega disse...

Amei o poema, Fernando Pessoa consegue descrever com perfeição o que sentimos muitas vezes, e tenho me sentido assim várias vezes!!!
O desenho me lembrou um certo momento meu que resultou em poema...Pra variar encaixou perfeitamente poema-desenho, como um casamento divino!!!

Sobre a questão dos contos, agradeço a idéia, prometo tentar...antes daquele poema fiz como se fosse um conto, se o conseguir reformular, postarei com certeza!

Não pare mais de desenhar...lembre-se dos vários amigos que abrem seu blog quase que diariamente na esperança de verum desenho seu, ou um conjunto harmonioso de desenho-poema, que nos identificamos tantas vezes.

Beijinhos
Ah, antes que eu esqueça, queria te pedir prascannearum desenho teu, que ilustra um poema meu!

Patrícia de Medeiros Nóbrega disse...

postei o conto, na verdade foi mais uma crônica mesmo!

Espero que goste!

Severus disse...

Chuva, noite e solidão, numca vi combinação tão perfeita.

E por falar em "Solidão" minha razão, ou a falta dela, conduziu-me a este pequeno poema de Eugenio Montale:

DEPOIS DA CHUVA

Sobre a areia molhada surgem ideogramas
de pés de galinha. Olho para trás
mas não vejo nem santuário nem asilo de aves.
Terá passado um ganso cansado, ou talvez manco.
Não saberia decifrar aquela linguagem
ainda que fosse chinês. Uma simples aragem
a apagará. Não é verdade
que a Natureza seja muda. Fala ao deus-dará
e a única esperança é que não se ocupe
muito da gente.


Muito boa essa ilustração.
Valeu.

 
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