domingo, 30 de dezembro de 2007



Meias paredes me permitem essa visão de encanto
Em cada canto um armador e rede ali dobrada
Tampa curvada de baús e luz de candeeiros
E o padroeiro em oratório de vida velada
As alpendradas lado a lado, não consigo vê-las
Meias-paredes se esbarram no caixão da casa
Mas são terraços com arreios, silos e ferretes
Nos pilares as gaiolas com mimos de asa.

Esta é a visão daqui de cima que meu olho expande
Eu, cumeeira de aroeira desta casa-grande.

sábado, 29 de dezembro de 2007


Em campo aberto de quintal, ciscados de terreiro

O galinheiro estaqueado de varas ao fundo

Meio oriundo da cozinha segue uma puxada

E a batucada do pilão de segundo a segundo

Vejo cisternas e tonéis de interno cimentado

Que são represas pros banhados canecos de flandre

O sanitário é um chalezinho lá no fim da casa

Visto daqui da cumeeira desta casa-grande.

A Cumeeira de Aroeira Lá da Casa Grande

Sou um grande Fã de Jessier Quirino e sempre tive a vontade de ilustrar um poema dele. Meu pai me deu de presente uma edição de Bandeira Nordestina, o último livro do poeta. Uma das poesias me chamou bastante atenção pela descrição detalhada de muitas características das casas do interior nordestino. O nome do poema é "A Cumeeira de Aroeira Lá da Casa Grande". É a própria cumeeira descrevendo a vista de uma casa do interior, graças as meias paredes internas. É fato que o Poeta Quirino não inventa essas estórias, ele as arranca da vida mesmo. Para mim ele é um tipo de condensador da vida simples que renegamos por tanto tempo e hoje vemos a importância que ela tinha. O poema é composto de oito estrofes e para cada uma eu farei uma ilustração. Elas serão feitas em ordem invertida para que no final possam ser lidas normalmente. Aproveitem, um gênio como Jessier Quirino não nasce muitas vezes tão perto de nós.
Gostaria de dedicar essa sequência de desenhos a meus Pais que tanto me ensinaram.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Como prova de meu amor



Por ti, encarnei-me no seio de uma Virgem;
Por ti, vim anunciar a boa nova;
Por ti, me indispus com os doutores da lei;
Por ti, fui interrogado e condenado;
Por ti, fui coroado com espinhos;
Por ti, sofri flagelação e escárnio;
Por ti, fui pregado em um madeiro;
Por ti, senti o acerbo do vinagre;
Por ti, dei o último suspiro e entreguei meu espírito;
Por ti, uma lança transpassou meu coração;
Por ti, dou a Vida Eterna.
Cassiano Augusto Oliveira da Silva

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O amor segue


Sagrado é o poder do tempo
O poder de persistir no tempo
A duração!

Manter a perseverança
Do bem, do bom, da paz
Dar felicidade
Seguir correto, firme

O sucesso chegará das profundezas do universo
A nuvem passa
A chuva atua
A semente silenciosamente nasce
E todos os seres fluem
Para suas próprias formas

Do sublime amor
Nada se perdeu
O amor é de quem ama
Nunca de quem foi amado
Nada se perdeu, o amor segue
Pois breve é a vida

Cada criatura responde
Segundo sua natureza
Para aquilo que foi devido
Uma pedra sera sempre uma pedra
Mesmo coberta de lôdo ou ouro
Somente atitudes verdadeiras e sólidas
Abrem o caminho certo
Seguir sem culpas evitar olhar para trás.


Eliézer Rolim, 18/05/07.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Para Sempre



Como se os dias fossem o últimos

E foram últimos

Os beijos nunca beijados

Foram derradeiras também

As promessas de dias e atitudes melhores


Afinal,

Eram os últimos pensamentos

O último minuto, o último momento

Mas minha boca

Tentava inutilmente

Sentir pela última vez

Os tais beijos nunca beijados

As falas nunca ditas

Tão esperadas...

Aquilo tudo nunca feito

Tão somente sonhado


Meus passos foram

Também os últimos

Sem olhar para tras

Em direção ao princípio

Fechei os olhos

Desapeguei-me!

Um rastro de imagens inesquecíveis

Vividas e não vividas

Me levaram para sempre!


Eliézer Rolim; 23/11/07

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

domingo, 16 de dezembro de 2007

Meu amor!



...Estarreci. A dôr não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão pra me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era uma mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mão para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mão para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
‑ “Meu amor!...”
João Guimarães Rosa

sábado, 1 de dezembro de 2007

O Diabo na rua, no meio do redemunho


“Que o senhor sabe? Qual: ...O Diabo na rua, no meio do redemunho... O senhor soubesse... Diadorim – eu queria ver – segurar com os olhos... Escutei o medo claro nos meus dentes... O Hermógenes: desumano, dronho – nos cabelões da barba... Diadorim foi nele... Negaceou, com uma quebra de corpo, gambetou... E eles sanharam e baralharam, terçaram. De supetão... e só...
E eu estava vendo! Trecheio, aquilo rodou, encarniçados, roldão de tal, dobravam para fora e para dentro, com braços e pernas rodejando, como quem corre, nas entortações. ...O Diabo na rua, no meio do redemunho... Sangue. Cortavam toucinho debaixo do couro humano, esfaqueavam carnes. Vi camisa de baetilha, e vi as costas de homem remando, no caminho para o chão, como corpo de porco sapecado e rapado...”

Grande Sertão Veredas, João Guimarães Rosa
 
Contador de visitas

Contador de visitas